Meu pai, o Dodge Dart e a sexta-feira que eu não queria perder

Meu pai era o rei do carro velho.
E digo isso com todo o amor de filha.
Quando eu era criança e adolescente, passaram pela nossa família carros de todos os tipos.
Meu pai gostava deles. Comprava, vendia, trocava, consertava e nós íamos vivendo as aventuras decorrentes das escolhas automobilísticas de Armindo.
Algumas melhores.
Outras nem tanto.
Entre elas havia uma coisa linda, preta, imponente e absolutamente incapaz de despertar em mim qualquer sentimento de confiança:
um Dodge Dart.
O carro era bonito.
Bonito mesmo.
Mas bebia gasolina como se não houvesse amanhã e tinha uma característica bastante inconveniente: vivia dando problema.
E parando.
Principalmente quando não devia.
Sexta-feira. Dezoito anos. Uma viagem em família.
Eu devia ter uns 18 anos quando meu pai decidiu que passaríamos o fim de semana em Águas de Lindóia.
Fomos os quatro: pai, mãe, Beto e eu.
Saímos no fim do dia de uma sexta-feira.
Agora, antes de continuar esta história, é preciso compreender um detalhe importantíssimo.
Eu tinha 18 anos.
Aos 18 anos, sexta-feira não foi inventada para viajar com pai, mãe e irmão.
Sexta-feira foi inventada para os amigos, para a turma, para sair, conversar, dançar, paquerar e fazer todas aquelas coisas absolutamente fundamentais que ocupam a agenda de uma menina dessa idade.
Pelo menos era assim que eu enxergava o mundo.
Portanto, posso afirmar que não entrei naquele Dodge irradiando felicidade.
Fui.
Porque naquela época a gente ia.
Mas feliz?
Não exageremos.
E o Dodge resolveu colaborar
Já estávamos na estrada quando o bendito resolveu parar.
Simplesmente parar.
Por falta de alguma coisa.
O quê?
Não faço a menor ideia.
Gasolina? Água? Alguma peça? Alguma coisa que esquentou? Alguma coisa que não deveria ter esquentado?
Décadas depois, a informação técnica desapareceu da minha memória.
O que permaneceu perfeitamente preservado foi o meu mau humor.
O dia estava terminando, estávamos na estrada, o carro não funcionava e não havia celular, aplicativo, localização compartilhada, socorro a um toque na tela ou qualquer uma dessas maravilhas que hoje parecem tão naturais.
Ficamos ali.
Pai.
Mãe.
Beto.
Eu.
O Dodge.
E as estrelas.
Para uma adolescente que já não queria ter viajado, aquilo não era simplesmente um defeito mecânico.
Era a confirmação absoluta de que eu tinha razão em querer ter ficado em casa.
Imagino a delicadeza dos meus pensamentos naquele momento.
Quando aparece alguém no meio da estrada
Mas existem histórias que a gente só entende direito muitos anos depois.
Porque, quando parecia que passaríamos sabe-se lá quanto tempo ali, apareceu um rapaz.
Um jovem que estudava em Bragança Paulista e estava voltando para casa.
Ele parou.
Viu aquela família à mercê da estrada, ouviu nossa história e fez uma coisa muito simples e, ao mesmo tempo, enorme:
nos levou até nosso destino.
Hoje penso nisso com outros olhos.
Um desconhecido encontrou quatro pessoas paradas na estrada, numa sexta-feira ao anoitecer, e decidiu ajudar.
Não sei seu nome.
Não sei o que aconteceu com ele depois.
Mas nunca esqueci que ele apareceu.
Naquele momento, talvez a Helena de 18 anos tenha pensado apenas:
Finalmente vamos sair daqui.
Hoje, a Helena de agora pensa diferente.
Deus é bom.
E, às vezes, a bondade chega dirigindo pela estrada, na figura de um estudante que resolveu parar.
E o Dodge?

Ah, sim.
A coisa linda ficou lá.
No dia seguinte, meu pai voltou para resgatá-la.
E certamente continuou gostando daquele carro muito mais do que eu.
Meu pai e eu sempre tivemos uma relação bastante diferente com automóveis.
Ele enxergava possibilidades.
Eu, naquele Dodge, enxergava a chance concreta de ficar novamente parada em algum lugar. 😂
Talvez por isso, apesar de reconhecer toda a importância e o charme que o Dodge Dart tem na história automobilística, nunca tenha conseguido desenvolver grande paixão pelo modelo.
Especialmente se for preto.
Nada pessoal, Dodge.
Ou talvez seja bastante pessoal.
Hoje eu faria a mesma viagem
Aqui está a parte engraçada de envelhecer.
Aos 18 anos, eu provavelmente teria dado qualquer coisa para trocar aquela viagem por uma sexta-feira com meus amigos.
Hoje daria qualquer coisa para entrar novamente naquele carro.
Meu pai dirigindo.
Minha mãe ao lado.
Beto e eu juntos.
Talvez até aceitasse o Dodge Dart.
Talvez.
Não vamos abusar da nostalgia. 😂
Porque algumas lembranças ficam bonitas justamente assim: imperfeitas.
Um carro problemático.
Uma adolescente emburrada.
Uma família na estrada.
Um desconhecido que parou para ajudar.
E um pai que, no dia seguinte, voltou para buscar seu Dodge como quem resgata um velho companheiro.
O carro ficou na estrada naquela noite.
Nós seguimos viagem.
E, tantos anos depois, percebo que aquela sexta-feira que eu não queria perder acabou se transformando em uma das sextas-feiras que minha memória decidiu guardar.
Até o mau humor virou saudade.
🚗 E você?
Já ficou parado na estrada por causa de um carro que parecia escolher justamente o pior momento para dar problema?
Ou já fez, aos 18 anos, uma viagem em família que parecia um enorme sacrifício e que hoje daria tudo para viver outra vez?
Conta pra mim. Tenho a impressão de que algumas das nossas melhores histórias começaram com um carro que não pegava.




O "animal" era imponente, mas realmente tinha a má fama de beberrão e problemático. Águas de Lindóia sempre integrante das boas histórias. Casos imprevistos, fazem parte da vida e constituem-se em aprendizado necessário, em como lidar com situações adversas.... A reflexão valeu: se está na memória, é porque não foi assim tão ruim....
Adorei a reflexão. Parabéns
Helena, eu ǰá dirigi um Dodge Dart com a alavanca do cambio na direção (no volante) e o banco dianteiro inteiriço, carro enorme, fascinante
Eu gosto de carros antigos