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Meu pai, o Dodge Dart e a sexta-feira que eu não queria perder

1 de set.
4 min de leitura

Meu pai era o rei do carro velho.

E digo isso com todo o amor de filha.

Quando eu era criança e adolescente, passaram pela nossa família carros de todos os tipos.

Meu pai gostava deles. Comprava, vendia, trocava, consertava e nós íamos vivendo as aventuras decorrentes das escolhas automobilísticas de Armindo.

Algumas melhores.

Outras nem tanto.

Entre elas havia uma coisa linda, preta, imponente e absolutamente incapaz de despertar em mim qualquer sentimento de confiança:

um Dodge Dart.

O carro era bonito.

Bonito mesmo.

Mas bebia gasolina como se não houvesse amanhã e tinha uma característica bastante inconveniente: vivia dando problema.

E parando.

Principalmente quando não devia.


Sexta-feira. Dezoito anos. Uma viagem em família.

Eu devia ter uns 18 anos quando meu pai decidiu que passaríamos o fim de semana em Águas de Lindóia.

Fomos os quatro: pai, mãe, Beto e eu.

Saímos no fim do dia de uma sexta-feira.

Agora, antes de continuar esta história, é preciso compreender um detalhe importantíssimo.

Eu tinha 18 anos.

Aos 18 anos, sexta-feira não foi inventada para viajar com pai, mãe e irmão.

Sexta-feira foi inventada para os amigos, para a turma, para sair, conversar, dançar, paquerar e fazer todas aquelas coisas absolutamente fundamentais que ocupam a agenda de uma menina dessa idade.

Pelo menos era assim que eu enxergava o mundo.

Portanto, posso afirmar que não entrei naquele Dodge irradiando felicidade.

Fui.

Porque naquela época a gente ia.

Mas feliz?

Não exageremos.



E o Dodge resolveu colaborar

Já estávamos na estrada quando o bendito resolveu parar.

Simplesmente parar.

Por falta de alguma coisa.

O quê?

Não faço a menor ideia.

Gasolina? Água? Alguma peça? Alguma coisa que esquentou? Alguma coisa que não deveria ter esquentado?

Décadas depois, a informação técnica desapareceu da minha memória.

O que permaneceu perfeitamente preservado foi o meu mau humor.

O dia estava terminando, estávamos na estrada, o carro não funcionava e não havia celular, aplicativo, localização compartilhada, socorro a um toque na tela ou qualquer uma dessas maravilhas que hoje parecem tão naturais.

Ficamos ali.

Pai.

Mãe.

Beto.

Eu.

O Dodge.

E as estrelas.

Para uma adolescente que já não queria ter viajado, aquilo não era simplesmente um defeito mecânico.

Era a confirmação absoluta de que eu tinha razão em querer ter ficado em casa.

Imagino a delicadeza dos meus pensamentos naquele momento.


Quando aparece alguém no meio da estrada

Mas existem histórias que a gente só entende direito muitos anos depois.

Porque, quando parecia que passaríamos sabe-se lá quanto tempo ali, apareceu um rapaz.

Um jovem que estudava em Bragança Paulista e estava voltando para casa.

Ele parou.

Viu aquela família à mercê da estrada, ouviu nossa história e fez uma coisa muito simples e, ao mesmo tempo, enorme:

nos levou até nosso destino.

Hoje penso nisso com outros olhos.

Um desconhecido encontrou quatro pessoas paradas na estrada, numa sexta-feira ao anoitecer, e decidiu ajudar.

Não sei seu nome.

Não sei o que aconteceu com ele depois.

Mas nunca esqueci que ele apareceu.

Naquele momento, talvez a Helena de 18 anos tenha pensado apenas:

Finalmente vamos sair daqui.

Hoje, a Helena de agora pensa diferente.

Deus é bom.

E, às vezes, a bondade chega dirigindo pela estrada, na figura de um estudante que resolveu parar.


E o Dodge?


Ah, sim.

A coisa linda ficou lá.

No dia seguinte, meu pai voltou para resgatá-la.

E certamente continuou gostando daquele carro muito mais do que eu.

Meu pai e eu sempre tivemos uma relação bastante diferente com automóveis.

Ele enxergava possibilidades.

Eu, naquele Dodge, enxergava a chance concreta de ficar novamente parada em algum lugar. 😂

Talvez por isso, apesar de reconhecer toda a importância e o charme que o Dodge Dart tem na história automobilística, nunca tenha conseguido desenvolver grande paixão pelo modelo.

Especialmente se for preto.

Nada pessoal, Dodge.

Ou talvez seja bastante pessoal.


Hoje eu faria a mesma viagem

Aqui está a parte engraçada de envelhecer.

Aos 18 anos, eu provavelmente teria dado qualquer coisa para trocar aquela viagem por uma sexta-feira com meus amigos.

Hoje daria qualquer coisa para entrar novamente naquele carro.

Meu pai dirigindo.

Minha mãe ao lado.

Beto e eu juntos.

Talvez até aceitasse o Dodge Dart.

Talvez.

Não vamos abusar da nostalgia. 😂

Porque algumas lembranças ficam bonitas justamente assim: imperfeitas.

Um carro problemático.

Uma adolescente emburrada.

Uma família na estrada.

Um desconhecido que parou para ajudar.

E um pai que, no dia seguinte, voltou para buscar seu Dodge como quem resgata um velho companheiro.

O carro ficou na estrada naquela noite.

Nós seguimos viagem.

E, tantos anos depois, percebo que aquela sexta-feira que eu não queria perder acabou se transformando em uma das sextas-feiras que minha memória decidiu guardar.

Até o mau humor virou saudade.


🚗 E você?

Já ficou parado na estrada por causa de um carro que parecia escolher justamente o pior momento para dar problema?

Ou já fez, aos 18 anos, uma viagem em família que parecia um enorme sacrifício e que hoje daria tudo para viver outra vez?


Conta pra mim. Tenho a impressão de que algumas das nossas melhores histórias começaram com um carro que não pegava.



5 comentários


Convidado:
01 de set.

O "animal" era imponente, mas realmente tinha a má fama de beberrão e problemático. Águas de Lindóia sempre integrante das boas histórias. Casos imprevistos, fazem parte da vida e constituem-se em aprendizado necessário, em como lidar com situações adversas.... A reflexão valeu: se está na memória, é porque não foi assim tão ruim....

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Convidado:
01 de set.

Adorei a reflexão. Parabéns

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Convidado:
01 de set.

Helena, eu ǰá dirigi um Dodge Dart com a alavanca do cambio na direção (no volante) e o banco dianteiro inteiriço, carro enorme, fascinante

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María Helena
01 de set.

Eu gosto de carros antigos

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Helena Fraga
Helena Fraga
01 de set.
Respondendo a

Bom dia!

São incriveis mesmo e sempre tem boas histórias!

Beijinhos

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