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O carro que guardou uma parte da minha juventude

  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Se os carros pudessem escrever memórias, o meu Fiat Prêmio precisaria de vários capítulos.

Afinal, foi nele que vivi algumas das melhores histórias da minha juventude.

Ele chegou à minha vida pelas mãos do meu pai, que comprou o carro de um amigo cuja filha estava deixando o Brasil. Era um Fiat Prêmio azul e, para mim, representava muito mais do que um simples automóvel.

Foi o primeiro carro quase zero que tive.

Foi também o primeiro carro de quatro portas da minha vida, algo que hoje pode parecer um detalhe, mas que naquela época tinha um significado especial. Era como se a vida estivesse avançando junto comigo.

O Prêmio acompanhou momentos que jamais esquecerei.

Foi palco de uma conversa muito importante — uma daquelas histórias que talvez seja melhor deixar guardada onde sempre esteve: entre mim e ele.

Alguns segredos merecem continuar viajando em silêncio.

Quando me casei, ele continuou ao meu lado.

Foram muitas viagens entre São Vicente e Florianópolis.

Horas de estrada.

Planos para o futuro.

Risadas.

Conversas sem fim.

Hoje percebo que não me lembro apenas dos destinos.

Lembro das histórias que contávamos pelo caminho.

Lembro da felicidade simples daqueles dias.

Mas a lembrança mais marcante aconteceu justamente em uma das últimas viagens.

Já tínhamos decidido nos mudar para São Vicente quando, na BR-116, um caminhão à nossa frente desviou de uma pedra.

A pedra veio em nossa direção.

E acertou em cheio o para-brisa.

O susto foi enorme.

O vidro estilhaçou.

E, de repente, a viagem virou aventura.

Seguimos de Registro até São Vicente praticamente sem para-brisa.

Era inverno.

Fazia um frio daqueles.

E além do vento gelado entrando sem pedir licença, havia um medo constante: a polícia nos parar no caminho.

Hoje a história rende boas risadas.

Naquele dia, nem tanto.

Mas talvez seja essa a mágica das lembranças.

Primeiro nós as vivemos.

Depois sobrevivemos a elas.

E só muitos anos mais tarde conseguimos transformá-las em histórias.

Quando penso naquele Fiat Prêmio azul, não me lembro de potência, consumo ou desempenho.

Lembro de um pai que ajudou a filha.

Lembro de um casamento feliz.

Lembro de estradas, conversas e sonhos.

Carros envelhecem e se transformam em capítulos da nossa própria biografia.



2 comentários


Mônica
há 5 horas

Mais uma vez, me fez pensar em um carro!

Não tinha me dado conta de como eles podem ser testemunhas leais de tantos momentos da vida!

Seus textos encantam!!😍👏👏👏👏

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Amandio de Sousa Gama
há 20 horas

Bela narrativa de boas, marcantes e saudosas lembranças .... Parabéns....

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