Comprei porque achei fofo — e descobri depois que ele voava baixo
- há 1 dia
- 3 min de leitura

— Seu carro está pronto.
Eu tinha 42 anos e estava prestes a receber o primeiro carro que havia comprado totalmente sozinha.
Fui até a Afonso Veículos e me conduziram para um lugar onde havia uma porta fechada.
Até aí, tudo normal.
Então abriram a porta.
E começou o espetáculo.
Lá estava ele.
Meu Corsa Hatch prata.
Cercado por luzes de discoteca.
Chuva de papel picado.
Uma verdadeira produção para a entrega de um carro.
Eu não estava recebendo uma Ferrari.
Não estava ganhando um automóvel em um programa de televisão.
Era o meu Corsa.
Mas naquele momento poderiam ter colocado até uma trilha sonora, porque para mim ele merecia tudo aquilo.
Eu tinha comprado aquele carro sozinha.
Sozinha mesmo.
Escolhi.
Decidi.
Comprei.
E estava feliz da vida.
A minha rigorosa análise técnica

Era um Corsa Hatch prata, motor 1.8.
E antes que algum apaixonado por carros imagine que eu passei semanas comparando potência, desempenho, torque, consumo e outras informações importantíssimas...
Não.
Minha decisão foi baseada em critérios muito mais sofisticados:
Eu achei o carro fofo.
Pequeno.
Bonito.
Compacto.
E cabíamos nós três.
Eu, João, com 8 anos, e Ana, com 4.
Pronto.
Negócio fechado.
Só depois descobri que o bichinho também voava baixo.
Uma fase em que a vida sorria
Eu vivia um momento muito feliz.
Tinha acabado de fazer uma bariátrica, estava com 42 anos e a lembrança que guardo daquela época é muito boa.
A vida era só sorrisos.
E aquele Corsa chegou justamente ali.
Talvez por isso eu tenha tanto carinho por ele.
Até então, muitos carros da minha vida tinham chegado pelas mãos do meu pai, tinham sido herdados ou simplesmente faziam parte da história da família.
Dessa vez era diferente.
Eu tinha escolhido e comprado o meu carro.
Pode parecer uma coisa pequena.
Para mim, não foi.
Era uma conquista.
Talvez aquelas luzes, a chuva de papel picado e toda aquela festa da entrega tenham ficado tão marcadas justamente por isso.
Não estavam apenas me entregando uma chave.
Eu estava celebrando uma independência.
Eu, a estrada e duas crianças no banco de trás
E nós aproveitamos aquele Corsa.
Viajamos muito.
Uma das viagens de que mais me lembro era para Águas de Lindóia.
Eu dirigindo.
Música tocando.
E no banco de trás...
— Mãe!
— Ele fez isso!
— Ela fez aquilo!
— Para!
— Mããããe!
João e Ana brigando.
Eu ouvindo música e seguindo viagem.
Pensando bem, a verdadeira trilha sonora da maternidade nunca esteve no rádio.
Estava no banco de trás.
E mesmo com as brigas, eram viagens felizes.
Muito felizes.
Até que uma luz acendeu...
Em uma ida para São Paulo, pouco antes do primeiro túnel da Imigrantes, uma luz resolveu aparecer no painel.
E eu descobri que talvez minha formação automobilística baseada no critério “achei fofo” tivesse algumas pequenas lacunas.
O Corsa parou.
E eu voltei para casa de guincho.
Fim da nossa história?
Que nada.
O Corsa sobreviveu por muitos anos depois disso.
Continuamos viajando.
Continuamos vivendo nossas aventuras.
E eu saí daquele episódio com um conhecimento técnico que nunca mais esqueci:
óleo se troca no tempo certo.
Há aprendizados que chegam pelos livros.
Outros chegam pelos cursos.
O meu chegou em cima de um guincho.
Muito mais que papel picado
Hoje, quando me lembro daquele Corsa prata, a primeira imagem que aparece é aquela porta se abrindo.
As luzes.
O papel picado.
E meu carro ali.
Mas agora entendo que a festa não era pelo Corsa.
Era por mim.
Aos 42 anos, eu estava vivendo uma fase feliz, criando dois filhos pequenos, pegando a estrada e descobrindo, mais uma vez, que conseguia fazer minhas próprias escolhas.
O Corsa carregou muita coisa.
Malas.
Crianças.
Brigas no banco de trás.
Música.
Viagens.
E uma mulher muito feliz ao volante.
Tudo começou porque achei o carro fofo.
Ainda bem que algumas das melhores decisões da vida não precisam de uma justificativa muito complicada.
E você?
Lembra do primeiro carro que comprou inteiramente por sua própria escolha?
Por que escolheu?
Pode contar a verdade.
Se foi só porque achou bonito, prometo que não vou julgar.
Afinal, eu fiz exatamente a mesma coisa.



Pois é, o Corsa foi lançado em Janeiro de 1994 e, nessa época eu já tinha 20 anos trabalhando na GM. Comprei um 1.0 no lançamento, numa promoção especial de lançamento feita para funcionários. Se o 1.0 já era forte, imagina o 1.8 para um carro daquele tamanho. Mas, convenhamos, bebia bastante (era um ébrio). No meu caso, o primeiro carro que pude comprar foi um fusca 64 azul 1200cc. Foi um guerreiro e nunca me deixou na mão. Belas histórias....
Eu, depois de algumas implicâncias com meu irmão, dormia a viagem quase toda quando íamos para águas de Lindóia.
Foi uma história muito bonita, nostálgica! Parabéns Mãe! Te amo