O dia em que couberam oito meninas dentro de um Chevette
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Até hoje eu não sei como aquilo deu certo.
Aliás, pensando melhor, não sei nem como nós conseguimos entrar.
Minha mãe teve alguns carros ao longo da vida — e os outros ainda renderão boas histórias por aqui —, mas durante uma época ela teve um Chevette dourado.
Eu devia ter uns 15 anos. Um pouco mais, um pouco menos.
Era década de 80, tempo dos bailes de garagem, das turmas de amigas e de uma adolescência em que nossos pais provavelmente sabiam bem menos sobre nossas aventuras do que imaginavam.
Eu tinha meu grupo.
E havia um pequeno detalhe logístico: minha mãe era a única mãe disponível.
Resultado?
Virou nossa motorista.
Quando havia baile de garagem, lá ia minha mãe com o Chevette dourado levando as meninas.
Até aí, tudo bem.
O problema é que eu, como qualquer adolescente irresponsável e muito generosa com aquilo que não me pertencia, comecei a oferecer carona.
— Minha mãe leva!
Reparem que eu não tinha carro.
Não dirigia.
Não pagava gasolina.
Não tinha absolutamente nenhuma autoridade para aumentar a lista de passageiros.
Mas tinha uns 15 anos.
E isso, aparentemente, me dava poderes extraordinários.
Os nossos bailes de garagem
Para quem não viveu os anos 80, talvez seja difícil explicar o que eram os bailes de garagem.
Para quem viveu, basta algumas imagens, uma música e pronto: a memória faz o resto.
Era para esses bailes que minha mãe nos levava no seu Chevette dourado.
E foi aí que começou o problema:
Eu tinha amigas demais e juízo de menos.
Sete. Ou oito.
Até que chegou o grande dia.
Éramos sete.
Ou oito.
Sinceramente, nem lembro mais.
Só sei que entramos todas naquele Chevette.
Todas.
Amassadas.
Espremidas.
Provavelmente com alguém no colo de alguém e com muito menos espaço do que qualquer ser humano deveria considerar razoável.
E fomos para o baile.
Hoje olho para trás e penso:
Como?
Como entramos?
Como minha mãe aceitou?
Como o Chevette conseguiu sair do lugar?
E, principalmente, como tudo aquilo deu certo?
Mas deu.
Éramos felizes e sabíamos?
Acho que sim.
A gente ria.
Se apertava.
Ia aos bailes.
Voltava contando histórias.
Não havia aplicativo para chamar outro carro.
Não havia grupo de WhatsApp para organizar quem iria com quem.
E certamente não havia oito celulares registrando a façanha para colocar nas redes sociais.
Havia um Chevette dourado.
Uma turma de meninas.
E uma mãe paciente o suficiente para transportar aquela pequena multidão.
Hoje seria impensável — e, convenhamos, ainda bem. Segurança vem primeiro e sete ou oito pessoas dentro de um Chevette definitivamente não é uma recomendação desta coluna!
Mas aquela lembrança pertence a outro tempo.
Não porque tudo fosse melhor.
Era simplesmente diferente.
E algumas cenas ficam guardadas justamente porque não poderiam mais se repetir.
Quando penso naquele Chevette, não penso no motor, na potência ou no ano do modelo.
Vejo um monte de adolescentes espremidas, falando todas ao mesmo tempo, provavelmente rindo demais.
E vejo minha mãe ao volante.
Talvez seja essa a imagem mais bonita.
Porque nós achávamos que ela estava apenas nos levando para um baile.
Décadas depois, percebo que ela estava ajudando a construir algumas das memórias mais divertidas da minha adolescência.
E o pobre do Chevette?
Sobreviveu.
Como, até hoje eu não sei.
E você?
Qual é aquela aventura aparentemente impossível da sua adolescência que, de algum jeito, sempre dava certo?
Conta para mim nos comentários.
Só não vale tentar repetir agora.
O Chevette agradece.




Ah, bailinhos de garagem, dançar com a menina do colégio vizinho, tomar um não como fora e ficar o tempo todo trocando o disco de vinil de lado A para o lado B. Saudade, geral. Adorei!