DESEJO-TE
"há muitas formas de noite,
Não ver-te... Já é."
J.Araujo Guimarães
De noite só quero vestido
O tecido dos teus dedos
E sobre o meu corpo
O manto do teu amor
De noite só quero teu olhar
Claridade para meu rosto
E em minhas mãos as tuas
Segurança para meus medos
De noite só quero o silêncio
A ser quebrado pelo teu respirar
E do teu corpo o agasalho
Para o frio que me tem tocado
De noite só quero a chuva
De teus lábios molhados
E a estrela dos teus olhos
Para iluminar meu quarto apagado
De noite só quero para meus ouvidos
A melodia da tua doce voz
Única que embala meu cansaço
Na noite que se avizinha
J.Araujo Guimarães
COMPARAÇÕES
Crescem poemas no pomar
Pêssegos laranjas maçãs
Poemas palavras frutos
Teus beijos doces romãs
Poemas de vento cercados
Partidos secos caídos
Poemas palavras arvores
Tuas mãos galhos queridos
Poemas em terra árida
Arado enxada ancinho
Poemas palavras raízes
Teu corpo profundo carinho
Poemas de sol e chuva
Sementes frutos doçura
Poemas palavras uva
Teus beijos, eterna loucura
Poemas cachos amadurecidos
Bananas mirtilos frutos tropicais
Poemas verbos merecidos
Pequenas colheitas para quem deseja mais
Poemas palavras semeadas
Rasgados espalhados por aí
Poemas de eterno amor
Que com saudade te escrevi
J. Araujo Guimarães
CINCO DA TARDE E AINDA NÃO TE VI...
"Quantas vezes o homem sonha o impossível
Tendo nas mãos o possível que ignora"
J.Araujo Guimarães
Carros circulando a alta velocidade na rua
Aviões sobrevoando as alturas com dificuldade no aterrar
Inverno com manhãs frias e chuvosas
E é tudo normal menos não ver teu olhar
Cometas que aparecem e desaparecem num instante
Genomas complexos que se conseguem descodificar
Estrelas que se vestem duma forma bela mas distante
E é tudo normal menos tuas mãos que não consigo tocar
Crianças que vagueiam pelas ruas desamparadas
Países com fome de paz e fartura de miséria
Degelo do planeta numa corrida alucinante
E é tudo normal menos o teu corpo que está distante
Políticos com promessas nas eleições nacionais
Comboios com destino certo e hora para chegar
Barcos que se afundam poluindo a terra e tudo o mais
E é tudo normal menos conseguir-te beijar
É tudo tão normal neste ritmo que nos impõem
Que vivo amordaçado à sociedade onde nasci
E sei amor, que estou longe, estando aqui ao pé de ti
E já são cinco da tarde e hoje não te vi.
J. Araujo Guimarães